Programa de conservação salva caracóis da extinção e devolve centenas deles à natureza

Uma história de conservação que começou com apenas alguns minúsculos caracóis terminou com centenas deles de volta ao lugar onde pertencem: a natureza.

Um programa internacional liderado pelo Chester Zoo, no Reino Unido, em parceria com especialistas da França e autoridades ambientais da Madeira, conseguiu recuperar populações de caracóis terrestres que estavam perigosamente próximas da extinção.

Entre os animais resgatados estavam apenas 21 exemplares da espécie Geomitra coronula. Na época, eles eram considerados possivelmente os últimos representantes conhecidos da espécie e foram encontrados sobrevivendo sob uma única rocha.

Agora, depois de anos de reprodução cuidadosa em ambientes protegidos, mais de 300 descendentes desses caracóis criados no Chester Zoo já foram devolvidos à natureza.

Uma população inteira que cabia em uma pequena placa de laboratório

A situação da espécie era tão delicada que os especialistas do Chester Zoo dizem que toda a população mundial conhecida de Geomitra coronula poderia caber dentro de uma única placa de Petri, recipiente pequeno normalmente utilizado em laboratórios.

Isso mostra o quanto esses animais estavam próximos de desaparecer completamente.

Os caracóis são encontrados naturalmente nas Ilhas Desertas, que fazem parte do arquipélago da Madeira, no Oceano Atlântico. Esse é o único lugar do mundo onde algumas dessas espécies vivem naturalmente.

Ao longo de muitos anos, porém, o ambiente das ilhas sofreu grandes mudanças provocadas pela presença humana e pela introdução de animais que não faziam parte daquele ecossistema.

Animais invasores quase fizeram os caracóis desaparecerem

Cabras e coelhos introduzidos nas ilhas impediram que parte da vegetação nativa se recuperasse. Ratos também chegaram ao local e se tornaram uma ameaça ainda maior aos pequenos caracóis.

Como as ilhas possuem poucas fontes naturais de água doce, os ratos passaram a atacar os moluscos para obter hidratação.

Combinados, esses fatores fizeram as populações de algumas espécies diminuírem drasticamente.

Foi então que o governo da Madeira pediu ajuda a especialistas em conservação.

Alguns dos últimos caracóis conhecidos foram cuidadosamente levados para programas de reprodução do Chester Zoo, na Inglaterra, e do ZooParc de Beauval, na França.

Especialistas precisaram aprender praticamente tudo do zero

Salvar esses pequenos animais não foi tão simples quanto colocá-los em um ambiente protegido e esperar que se reproduzissem.

Os especialistas tinham poucas informações sobre os cuidados necessários para manter algumas dessas espécies.

Por isso, as equipes precisaram descobrir quais alimentos funcionavam melhor, quais temperaturas eram adequadas e como aconteciam seus ciclos de reprodução.

Ambientes especiais foram construídos nos zoológicos para imitar as condições encontradas nas ilhas.

Com o tempo, o esforço começou a dar resultado.

Os 21 exemplares de Geomitra coronula deram origem a uma população muito maior sob cuidados humanos, criando finalmente a possibilidade de devolver parte deles à natureza.

Centenas de caracóis voltaram para casa

Mais de 300 descendentes da espécie criados no Chester Zoo foram transportados de volta para a ilha de Bugio, no arquipélago da Madeira.

Outros 270 caracóis da espécie Discula lyelliana, reproduzidos por especialistas na França, também foram devolvidos ao ambiente natural como parte do programa.

Antes da soltura, as autoridades ambientais da Madeira trabalharam para tornar o local mais seguro.

Espécies invasoras foram removidas e partes do habitat foram restauradas, criando melhores condições não apenas para os caracóis, mas também para aves marinhas ameaçadas que vivem na região.

Chegar até o local da soltura foi uma aventura

Transportar animais de poucos milímetros até uma ilha remota também trouxe desafios inesperados.

A ilha de Bugio não possui um cais convencional. A equipe precisou chegar de barco, entrar na água e depois escalar o terreno rochoso usando capacetes e equipamentos de segurança.

Segundo o Chester Zoo, foram necessárias cerca de duas horas para percorrer menos de três quilômetros.

Parte do trabalho também aconteceu durante a noite.

Os especialistas utilizaram lanternas de luz vermelha para localizar pequenas rachaduras nas rochas adequadas aos caracóis sem incomodar as aves marinhas da ilha, que são sensíveis à iluminação artificial.

Pequenos animais com uma grande função na natureza

Os caracóis devolvidos à natureza medem menos de oito milímetros, mas seu tamanho não representa sua importância.

Eles se alimentam de matéria vegetal e ajudam a devolver nutrientes ao solo, participando de processos importantes para o funcionamento do ecossistema.

Por isso, recuperar essas populações também pode contribuir para a restauração do ambiente das Ilhas Desertas como um todo.

Os especialistas continuam acompanhando os animais depois da reintrodução.

E há mais uma boa notícia: segundo a equipe envolvida no projeto, as populações estão crescendo tanto nos centros de reprodução quanto na natureza, e as taxas de sobrevivência dos caracóis soltos estão acima das expectativas.

Uma espécie que ganhou uma nova chance

O trabalho ainda não terminou. O Chester Zoo mantém programas de reprodução para quatro espécies de caracóis das Ilhas Desertas e pretende ampliar a rede de instituições envolvidas na conservação desses animais.

A ideia é criar populações suficientemente grandes e geneticamente diversas para que futuras reintroduções continuem fortalecendo os grupos selvagens.

Mas o resultado alcançado até agora já representa uma enorme mudança.

Uma espécie que chegou ao ponto de ter apenas 21 exemplares conhecidos agora possui centenas de descendentes, e muitos deles já estão novamente vivendo em seu habitat natural.

É uma lembrança de que, mesmo quando uma espécie chega perigosamente perto de desaparecer, ainda pode haver tempo para mudar sua história.

Com ciência, dedicação e cooperação entre diferentes países, alguns dos menores habitantes das Ilhas Desertas acabam de ganhar uma grande segunda chance.