Proteção marinha quase triplica na Turquia e ajuda peixes, tubarões e focas a voltar

Uma grande área do litoral mediterrâneo da Turquia está mostrando como a natureza pode responder quando recebe proteção de verdade.

Ao longo de aproximadamente 500 quilômetros de costa, pescadores, conservacionistas e comunidades locais trabalharam juntos para ampliar áreas protegidas, combater a pesca ilegal e recuperar habitats importantes para a vida marinha.

O resultado é uma coleção de boas notícias: novas zonas onde a pesca é proibida foram criadas, a atividade ilegal caiu drasticamente em uma das áreas monitoradas, pescadores começaram a relatar melhora nas capturas e animais como tubarões e focas-monge voltaram a aparecer com mais frequência.

O trabalho mostra que proteger o oceano não significa necessariamente escolher entre natureza e pessoas. Quando bem planejada, a recuperação ambiental também pode beneficiar comunidades que dependem do mar para viver.

Projeto começou com uma pergunta simples

A iniciativa se estende entre a Baía de Gökova e o Cabo Gelidonya, no sudoeste da Turquia.

Quando o Endangered Landscapes & Seascapes Programme começou a apoiar o trabalho em 2019, a equipe queria descobrir se uma experiência de conservação que já havia apresentado bons resultados em Gökova poderia funcionar em uma extensão muito maior do litoral.

O projeto envolveu mais de 62 mil hectares de mar, seis áreas de proteção ambiental especial e diferentes habitats, incluindo pradarias submarinas, recifes rochosos e formações importantes para a reprodução e alimentação de diversas espécies.

O desafio era grande porque simplesmente desenhar uma área protegida em um mapa não garante que a natureza esteja realmente segura.

Era necessário fiscalizar, envolver os pescadores e criar uma rede de locais protegidos que permitisse aos animais se deslocarem ao longo da costa.

18 zonas sem pesca foram criadas ou ampliadas

Entre 2019 e 2023, o projeto ajudou a criar ou ampliar 18 zonas onde a pesca é proibida.

Também foram estabelecidas novas áreas altamente protegidas em colaboração com comunidades locais e órgãos públicos.

Segundo o coordenador do projeto e conservacionista turco Zafer Kızılkaya, esse processo fez com que a quantidade de áreas marinhas protegidas vinculadas à expansão do modelo de Gökova quase triplicasse.

Mas havia uma preocupação importante.

Peixes, tubarões, focas e outros animais não conhecem as linhas que aparecem nos mapas.

Muitas espécies migram ou precisam utilizar diferentes habitats durante sua vida.

Um animal pode nascer dentro de uma área protegida e depois sair dela em busca de alimento, reprodução ou novos territórios.

Por isso, a equipe começou a pensar não apenas em áreas isoladas, mas em corredores ecológicos capazes de conectar diferentes partes do litoral.

Os próprios pescadores ajudaram a convencer outros pescadores

No início, nem todos viam as zonas sem pesca com entusiasmo.

Para famílias que dependem da pesca, fechar parte do mar pode parecer uma ameaça direta à renda.

Mas aconteceu algo interessante.

Pescadores de Gökova, que já haviam acompanhado de perto a recuperação das populações de peixes depois da criação de áreas protegidas, começaram a conversar com colegas de outras regiões.

Em vez de ouvir apenas cientistas ou organizações ambientais, os pescadores passaram a ouvir pessoas que tinham a mesma profissão e enfrentavam os mesmos desafios.

Segundo Kızılkaya, isso mudou completamente a conversa.

Quem já havia visto os resultados explicava que permitir a recuperação dos peixes dentro de determinadas áreas poderia aumentar a quantidade de animais também nas regiões vizinhas onde a pesca continuava permitida.

Proteção no papel não era suficiente

Outro grande problema era a pesca ilegal.

Uma área pode ser oficialmente protegida, mas a regra pouco ajuda se ninguém estiver presente para fiscalizá-la.

Por isso, o projeto ampliou um sistema de guardiões marinhos.

Pescadores locais e antigos pescadores receberam treinamento para patrulhar a costa, registrar atividades ilegais e trabalhar em conjunto com as autoridades.

Eles conheciam os lugares onde a pesca clandestina costumava acontecer, os horários mais utilizados e os sinais que indicavam atividades suspeitas.

Com o passar dos anos, novas embarcações foram incorporadas e bases de patrulhamento foram estabelecidas em diferentes pontos da costa.

Pesca ilegal caiu cerca de 80% em Gökova

Os números mostram o tamanho da mudança.

Até 2023, o projeto havia realizado 1.145 patrulhas e aumentado em 39% a cobertura de fiscalização marítima.

Na Baía de Gökova, os registros de pesca ilegal caíram cerca de 80%.

Essa redução abriu espaço para que os ecossistemas começassem a se recuperar.

Com menos pressão sobre os peixes, as populações tiveram mais oportunidades para crescer e se reproduzir.

E os efeitos começaram a ser percebidos não apenas pelos pesquisadores.

Pescadores começaram a perceber mais peixes no mar

Cooperativas locais passaram a relatar melhora nas capturas realizadas fora das zonas protegidas.

Alguns pescadores disseram estar encontrando resultados melhores do que os observados havia anos.

Isso acontece porque áreas sem pesca podem funcionar como verdadeiros berçários.

Peixes conseguem crescer, atingir a idade reprodutiva e produzir novas gerações com menor risco de captura.

Com o aumento das populações, parte desses animais se desloca para áreas vizinhas, onde a pesca sustentável continua permitida.

Assim, proteger determinadas regiões pode ajudar também quem depende economicamente da pesca ao redor delas.

Até grandes predadores começaram a voltar

Um ecossistema saudável não é formado apenas por muitos peixes pequenos.

Quando predadores maiores voltam a aparecer, isso pode ser um sinal de que toda a cadeia alimentar está se recuperando.

E foi exatamente o que os especialistas começaram a observar.

Tubarões-correia passaram a ser registrados durante todo o ano dentro da área marinha protegida.

Segundo a equipe do projeto, trata-se de um dos poucos lugares do Mediterrâneo onde esses tubarões permanecem durante todos os meses do ano.

Outra espécie que trouxe motivos para comemorar foi a foca-monge-do-Mediterrâneo, um dos mamíferos marinhos mais ameaçados do planeta.

Mais de 36 indivíduos já foram registrados dentro da região acompanhada pelo projeto.

Câmeras acompanham as focas dentro das cavernas

O monitoramento da espécie ganhou até ajuda da tecnologia.

Câmeras instaladas em cavernas utilizadas pelas focas permitem acompanhar os animais em tempo real.

Sistemas de identificação também ajudam os pesquisadores a reconhecer indivíduos diferentes.

De acordo com o projeto, pelo menos 19 focas que utilizam essas cavernas já podem ser reconhecidas individualmente.

O crescimento da presença dos animais chama ainda mais atenção porque a costa não ficou vazia de pessoas.

O turismo aumentou, assim como o número de embarcações.

Mesmo assim, com proteção e fiscalização adequadas, as focas continuaram retornando.

Um peixe invasor virou também oportunidade de renda

O Mediterrâneo enfrenta outro desafio: espécies invasoras que chegam principalmente de regiões mais quentes e encontram condições cada vez mais favoráveis conforme a temperatura do mar aumenta.

Entre elas está o peixe-leão.

Sem muitos predadores naturais, ele pode consumir grande quantidade de pequenos peixes e alterar o equilíbrio dos ecossistemas.

A equipe decidiu tentar transformar parte do problema em solução.

Depois de perceber que a carne do peixe-leão tinha potencial culinário, Kızılkaya entrou em contato com um chef de Istambul.

A experiência deu certo.

Outros restaurantes passaram a demonstrar interesse e surgiu um novo mercado para espécies invasoras.

Desde 2020, aproximadamente 18 toneladas de espécies invasoras foram retiradas do ambiente por meio dessa iniciativa.

Mais de mil pescadores de pequena escala receberam apoio e treinamento, e dezenas de restaurantes passaram a comprar esses animais.

Assim, a retirada de espécies que pressionam o ecossistema também passou a gerar uma nova fonte de renda.

O mar mostrou que pode responder rapidamente

Uma das lições mais animadoras observadas pela equipe é a velocidade com que alguns ambientes marinhos conseguem reagir.

Restaurar uma floresta terrestre pode exigir décadas até que árvores grandes voltem a crescer.

No oceano, certas mudanças podem aparecer em poucos anos quando a principal pressão é reduzida.

Segundo Kızılkaya, em áreas bem protegidas já foi possível observar sinais importantes de recuperação em cerca de três ou quatro anos.

Peixes retornaram.

Predadores reapareceram.

Focas voltaram às cavernas.

E pescadores começaram a perceber melhorias no próprio trabalho.

Proteção também pode deixar o ecossistema mais resistente

O monitoramento trouxe ainda uma descoberta interessante.

As áreas totalmente protegidas apresentaram menos espécies invasoras do que regiões semelhantes sem a mesma proteção.

À primeira vista, isso parece estranho, já que ninguém está retirando peixes dessas áreas.

Mas existe uma possível explicação.

Quando o ecossistema se recupera, grandes peixes e predadores naturais também aumentam.

Esses animais ajudam a controlar populações invasoras e tornam o ambiente mais equilibrado.

Ou seja, uma área saudável pode ser mais capaz de resistir às mudanças que chegam de fora.

O projeto financiado terminou, mas o trabalho continua

A fase apoiada pelo Endangered Landscapes & Seascapes Programme foi concluída formalmente em 2025.

Isso não significa que o trabalho parou.

Novas iniciativas já estão em andamento para conectar habitats, proteger pradarias submarinas, melhorar a fiscalização e ampliar o modelo para outras regiões.

Em 2026, os guardiões marinhos continuam realizando patrulhas em áreas como Gökova, Fethiye-Göcek e Datça-Bozburun.

A organização local Mediterranean Conservation também segue trabalhando ao lado de autoridades e comunidades para proteger a biodiversidade e apoiar uma pesca mais sustentável.

Turquia ampliou ainda mais a proteção do mar em 2026

O movimento ganhou um novo capítulo em agosto de 2026.

O governo turco declarou oficialmente seus primeiros parques nacionais marinhos, incluindo uma área entre Fethiye e Kaş e outra no norte do Mar Egeu.

A decisão faz parte dos esforços do país para aumentar a quantidade de ambientes terrestres e marinhos protegidos.

É mais um sinal de que ideias que começaram de maneira local podem acabar influenciando ações em uma escala muito maior.

Quando conservação e comunidade trabalham juntas

A história do litoral turco mostra que proteger a natureza funciona melhor quando as pessoas que vivem dela fazem parte da solução.

Os pescadores não foram tratados apenas como um problema a ser controlado.

Eles se tornaram parceiros.

Alguns passaram a convencer outros pescadores.

Outros se transformaram em guardiões do mar.

Mais de mil receberam apoio para encontrar novas oportunidades relacionadas ao manejo de espécies invasoras.

E, ao mesmo tempo, a vida marinha começou a mostrar sinais de recuperação.

500 quilômetros de costa e uma mensagem de esperança

Ainda existem desafios importantes no Mediterrâneo.

O aquecimento das águas continua modificando ecossistemas, espécies invasoras continuam chegando e a pressão da pesca e do turismo não desapareceu.

Mas o que aconteceu entre Gökova e o Cabo Gelidonya mostra que essas dificuldades não tornam a recuperação impossível.

Em poucos anos, novas zonas protegidas foram criadas, a pesca ilegal caiu, populações de peixes melhoraram, tubarões retornaram e mais focas-monge passaram a utilizar a região.

Para quem trabalha há anos com conservação, esses resultados são motivos concretos para continuar.

É uma boa notícia que vem diretamente do fundo do mar: quando comunidades, ciência e proteção caminham juntas, a natureza pode encontrar espaço para se reconstruir.