Estudo identifica proteína bacteriana ligada à fibrose pulmonar e aponta anticorpo promissor
Uma descoberta feita por pesquisadores dos Estados Unidos e do Japão abriu um novo caminho para entender como a fibrose pulmonar pode se desenvolver — e também revelou um possível alvo para futuros tratamentos.
O centro da pesquisa é uma pequena substância chamada corisin, produzida por determinadas bactérias que fazem parte do microbioma humano.
Os cientistas descobriram que a corisin consegue entrar nas células que revestem os pulmões, prejudicar mecanismos importantes de proteção celular e estimular processos que levam à formação de tecido cicatricial.
A parte mais animadora veio quando os pesquisadores utilizaram um anticorpo desenvolvido especificamente para neutralizar essa substância.
Em experimentos realizados com células e camundongos, o anticorpo reduziu significativamente os danos provocados pela corisin e diminuiu a fibrose pulmonar.
A pesquisa ainda está em fase pré-clínica e não significa que já exista um novo medicamento disponível para pacientes. Mas oferece uma pista importante sobre um mecanismo da doença que poderá, no futuro, levar a novas estratégias de tratamento.

O que é fibrose pulmonar?
A fibrose pulmonar acontece quando partes do tecido saudável dos pulmões são progressivamente substituídas por tecido cicatricial.
Esse tecido mais rígido dificulta o funcionamento normal do órgão e pode tornar a respiração cada vez mais difícil.
Em algumas formas da doença, como a fibrose pulmonar idiopática, ainda não se conhece completamente o que inicia e mantém todo esse processo.
É justamente por isso que entender os mecanismos responsáveis pelos danos às células é tão importante.
Quanto mais os cientistas descobrem sobre aquilo que desencadeia a cicatrização anormal, maiores são as chances de encontrar maneiras de interrompê-la.
Uma pequena substância produzida por bactérias chamou atenção
A corisin já vinha sendo estudada pela equipe há alguns anos.
Ela é um pequeno fragmento de proteína produzido por bactérias presentes no microbioma.
Pesquisas anteriores já indicavam que a substância poderia danificar células pulmonares e contribuir para a fibrose.
Mas ainda restavam perguntas importantes.
A corisin era realmente capaz de participar diretamente do desenvolvimento da doença?
Ela poderia ser encontrada nos pulmões de pessoas com fibrose?
E, principalmente, seria possível bloquear seus efeitos?
O novo estudo buscou justamente responder a essas questões.
Pesquisadores analisaram amostras de pacientes
A equipe estudou amostras de líquido retiradas dos pulmões de pacientes com fibrose pulmonar atendidos em um hospital no Japão.
Esse material, chamado líquido de lavagem broncoalveolar, é obtido em determinados procedimentos médicos e permite analisar substâncias e células presentes nas vias respiratórias.
Os pesquisadores compararam essas amostras com material coletado de voluntários saudáveis.
Nas amostras dos pacientes com fibrose, eles encontraram sequências de DNA relacionadas a bactérias capazes de produzir corisin.
Foi uma evidência importante de que essas bactérias também podem estar presentes no próprio ambiente pulmonar.
Corisin retirada das amostras fez o efeito tóxico diminuir
Os cientistas fizeram então um experimento especialmente interessante.
Utilizando um anticorpo desenvolvido pela equipe, removeram a corisin das amostras de pacientes.
Depois, compararam o efeito dessas amostras sobre células pulmonares cultivadas em laboratório.
Quando a corisin estava presente, as amostras apresentavam efeito prejudicial sobre as células.
Quando a substância era retirada com o anticorpo, esse efeito diminuía bastante.
Para os pesquisadores, isso ajudou a mostrar que a corisin não estava apenas presente por coincidência.
Ela tinha atividade biológica e participava diretamente dos danos observados nas células.
Como a corisin consegue causar danos?
Para entender melhor o mecanismo, a equipe acompanhou o que acontecia depois que a corisin entrava nas células que revestem os pulmões.
Os pesquisadores observaram que a substância chegava às mitocôndrias.
As mitocôndrias são estruturas conhecidas principalmente por produzirem energia, mas também participam de diversos processos essenciais para a saúde celular.
A corisin interferiu no sistema responsável por manter a qualidade e o equilíbrio das proteínas dentro das células.
Quando esse sistema começou a falhar, surgiram diferentes problemas.
As células passaram a apresentar maior estresse oxidativo, sinais de envelhecimento precoce e aumento da morte celular.
Essas alterações contribuíram para um ambiente favorável à formação do tecido cicatricial característico da fibrose.
Camundongos desenvolveram fibrose ao produzir corisin nos pulmões
Os pesquisadores quiseram saber se a corisin poderia realmente provocar fibrose em um organismo vivo.
Para isso, desenvolveram camundongos modificados para produzir continuamente a substância nos pulmões.
Mesmo sem uma fonte externa de corisin, esses animais desenvolveram espontaneamente fibrose pulmonar progressiva.
O resultado forneceu uma evidência adicional de que a substância pode atuar como participante direto do processo da doença.
Também mostrou que quantidades muito pequenas de corisin podem produzir efeitos biológicos importantes.
Anticorpo conseguiu reduzir os danos nos animais
Foi então que surgiu a parte mais promissora do trabalho.
Os pesquisadores trataram os camundongos com um anticorpo capaz de se ligar à corisin e neutralizá-la.
Os animais tratados apresentaram redução significativa da fibrose pulmonar.
A gravidade da doença também diminuiu e a sobrevivência melhorou nos experimentos descritos pela equipe.
Isso não significa que o anticorpo terá necessariamente o mesmo efeito em pessoas.
Mas demonstra aquilo que os cientistas chamam de uma prova de conceito: bloquear a corisin parece ser capaz de interromper parte do processo que produz danos e cicatrização nos pulmões.
Uma nova maneira de olhar para o microbioma
O estudo também acrescenta uma nova peça à crescente compreensão sobre o papel do microbioma na saúde.
Quando ouvimos falar em microbioma, normalmente pensamos nas bactérias presentes no intestino.
Mas microrganismos vivem em diferentes partes do corpo e podem produzir pequenas moléculas capazes de interagir com nossas próprias células.
Nesse caso, a equipe mostrou que produtos bacterianos podem ter relação direta com processos de lesão e fibrose pulmonar.
Os pesquisadores já haviam encontrado anteriormente evidências de que a corisin produzida no intestino poderia viajar pela circulação sanguínea.
O novo trabalho indica que bactérias presentes nas próprias vias respiratórias também podem contribuir para a presença da substância nos pulmões.
Pesquisa utilizou pacientes, células e animais para montar o quebra-cabeça
Um ponto importante do estudo é que diferentes tipos de experimento foram utilizados.
Os pesquisadores analisaram amostras reais de pacientes.
Depois realizaram experimentos com células cultivadas em laboratório para observar diretamente os efeitos da corisin.
Por fim, utilizaram modelos animais para descobrir o que acontecia quando a substância era produzida continuamente nos pulmões e quando era neutralizada por um anticorpo.
Essas diferentes etapas permitiram ligar as observações feitas em pacientes a mecanismos celulares e a alterações observadas em organismos vivos.
Estudo foi publicado na Nature Communications
Os resultados foram publicados na revista científica Nature Communications.
O trabalho reuniu pesquisadores da University of Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos, e da Mie University, no Japão, além de colaboradores de outras instituições.
Entre os líderes da pesquisa estão Isaac Cann, professor da Universidade de Illinois, e Esteban Gabazza, professor da Universidade de Mie.
Segundo os pesquisadores, compreender exatamente como a corisin provoca os danos é um passo importante porque transforma a substância em um alvo muito mais definido para futuros tratamentos.
O anticorpo ainda não é um tratamento para pessoas
Apesar dos resultados positivos, existe uma diferença importante entre uma descoberta de laboratório e um medicamento disponível em hospitais.
O anticorpo ainda está em desenvolvimento.
Os experimentos terapêuticos descritos neste estudo foram realizados principalmente em células e camundongos.
Não houve um ensaio clínico demonstrando que o tratamento funciona em pacientes com fibrose pulmonar.
Antes disso acontecer, ainda serão necessários estudos adicionais para avaliar fatores como segurança, dose, duração do efeito e possíveis efeitos colaterais.
Somente depois dessas etapas uma terapia poderá avançar para estudos clínicos em seres humanos.
Equipe já pensa nos próximos passos
Os pesquisadores pretendem continuar aperfeiçoando o anticorpo.
A equipe possui um pedido de patente relacionado à tecnologia e quer desenvolver formas de bloquear a corisin antes que ela consiga entrar nas células.
Outra possibilidade é procurar maneiras de proteger diretamente as mitocôndrias e os sistemas responsáveis pelo controle das proteínas.
Assim, mesmo que a corisin esteja presente, talvez seja possível impedir parte da cadeia de danos que termina em fibrose.
Descoberta pode ter importância além dos pulmões
A fibrose não acontece apenas no sistema respiratório.
Processos semelhantes de formação excessiva de tecido cicatricial podem afetar órgãos como rins, fígado e coração.
A própria equipe já encontrou relações entre a corisin e fibrose em outros órgãos em pesquisas anteriores.
Por isso, os cientistas acreditam que entender melhor essa substância poderá abrir linhas de investigação que ultrapassem a fibrose pulmonar.
Essa possibilidade ainda precisa ser estudada, mas torna o mecanismo especialmente interessante.
Uma boa notícia que começa entendendo melhor a doença
Nem toda boa notícia médica chega na forma de um medicamento pronto.
Muitas vezes, o avanço acontece muito antes disso.
Ele começa quando pesquisadores descobrem uma peça que estava faltando no funcionamento de uma doença.
Neste caso, a equipe encontrou uma ligação entre uma pequena substância produzida por bactérias e uma sequência de acontecimentos que pode provocar danos graves às células pulmonares.
Depois mostrou que neutralizar essa substância com um anticorpo conseguiu diminuir os danos em experimentos de laboratório e reduzir significativamente a fibrose em camundongos.
Ainda não sabemos se a estratégia funcionará da mesma maneira em pacientes.
Mas agora os pesquisadores possuem um novo alvo concreto para investigar.
E quando se trata de doenças complexas como a fibrose pulmonar, descobrir onde intervir pode ser justamente o primeiro passo para criar tratamentos melhores no futuro.
É uma boa notícia científica com a cautela que a ciência exige: ainda existe um longo caminho pela frente, mas esse caminho acabou de ganhar uma nova direção.