A Revolução da Mobilidade em Manila: Como a Sociedade Civil Transformou o Transporte Público e Redesenhou a Cidade

O Cenário de Desigualdade: Quando as Cidades Priorizam os Carros

Por muitas décadas, o desenvolvimento urbano em grande parte do mundo seguiu uma premissa excludente: priorizar o transporte individual em detrimento do coletivo. Nas Filipinas, essa disparidade atingiu níveis alarmantes. Historicamente, impressionantes 98% dos fundos e da infraestrutura de transporte eram destinados aos meros 6% da população que possuíam veículos particulares.

Para os milhões de cidadãos que dependiam de ônibus, caminhadas ou bicicletas, a realidade era de um trânsito caótico, ruas perigosas e calçadas inexistentes. No entanto, foi em meio a uma das maiores crises globais recentes que uma semente de mudança germinou, dando início a uma verdadeira revolução urbana na capital, Manila, e se expandindo para todo o país.

O Ponto de Virada: A Pandemia e a Paralisia do Transporte

Quando a pandemia global forçou a imposição de lockdowns rigorosos e o fechamento de empresas, o transporte público em Manila — uma metrópole vibrante com cerca de 1,9 milhão de habitantes — foi completamente paralisado. Imediatamente, as autoridades se depararam com uma dura realidade: a vasta maioria da força de trabalho essencial da cidade dependia exclusivamente do transporte público para sobreviver.

Além disso, o impacto econômico sobre os trabalhadores do setor de transporte foi devastador. Com a interrupção das frotas de ônibus e jipes locais, a renda dessas famílias despencou da noite para o dia. Foi exatamente nesse cenário de urgência social e econômica que nasceu um movimento que mudaria a face do país.

A Ascensão da Coalizão Move As One

Formada por mais de 142 grupos civis e engajando cerca de 77.000 pessoas, a coalizão Move As One emergiu como uma força unificada para representar a grande parcela da sociedade que não dirigia. O objetivo era claro: exigir mudanças estruturais definitivas. A população queria rotas e paradas de ônibus oficiais, ciclovias protegidas, calçadas elevadas e arborizadas, além de infraestrutura inclusiva para pessoas com deficiência.

“Com o Move As One, demos a todos uma plataforma para se conectarem, para se conhecerem, para ouvirem as lutas comuns uns dos outros, para criar aquele sentido compartilhado de solidariedade e para formar consenso”, explicou Rycel Bendaña, coordenadora nacional da coalizão.

O trabalho do grupo foi incansável. Envolveu bater de porta em porta, realizar ligações frias, testemunhar diante da Câmara e do Senado filipino e construir relacionamentos estratégicos dentro da prefeitura. Em pouco tempo, a coalizão deixou de ser apenas um grupo de ativistas para se tornar uma consultoria indispensável para o próprio governo. Mark Steven Pastor, subsecretário de transporte rodoviário e infraestrutura do Departamento de Transporte (DoT) das Filipinas, chegou a descrever o Move As One como o “Canivete Suíço” do DoT, fornecendo dados e planejamento cruciais para a execução de projetos viários.

Conquistas Históricas e Bilhões em Investimentos

O impacto do ativismo baseado em dados e do diálogo persistente foi colossal. A coalizão influenciou diretamente as decisões governamentais, ajudando a redirecionar US$ 946 milhões em financiamento de transporte de curto prazo e impressionantes US$ 12 bilhões para investimentos de médio e longo prazo, segundo dados levantados pelo World Resources Institute (WRI).

As mudanças físicas e estruturais nas ruas já são visíveis e transformadoras:

  • A Revolução das Ciclovias: Em todo o país, mais de 1.280 quilômetros (cerca de 800 milhas) de novas ciclovias foram construídas, conectando bairros em diversas cidades de forma segura e sustentável.
  • O Carrossel EDSA: A principal artéria rodoviária de Manila, a Avenida Epifanio de los Santos (EDSA), ganhou uma rota exclusiva para ônibus. O sistema conta com estações dedicadas, acesso seguro para pedestres e embarque estruturado, funcionando como um verdadeiro sistema de trânsito rápido (BRT).
  • Espaços para Pessoas, Não Apenas Veículos: Fundos públicos foram redirecionados para criar praças amigáveis aos pedestres, incluindo um boulevard ao longo do Rio Pasig e a consolidação de uma zona livre de carros no histórico distrito de Intramuros.
  • Dignidade Trabalhista: O movimento também impulsionou uma reforma vital na forma como os trabalhadores de transporte público são remunerados, garantindo mais estabilidade financeira à categoria.

Reconhecimento Internacional: O Prêmio WRI Ross Center

A magnitude da transformação em Manila não passou despercebida pela comunidade internacional. O trabalho da coalizão Move As One foi oficialmente validado e celebrado globalmente ao ser selecionado como um dos cinco finalistas do prestigiado WRI Ross Center Prize for Cities 2025-2026. Este prêmio destaca as iniciativas mais inovadoras do mundo que estão catalisando cidades saudáveis, sustentáveis e inclusivas.

Um Modelo para o Futuro Urbano

A história de Manila prova que a mobilidade urbana sustentável não é um luxo exclusivo de países desenvolvidos, mas uma necessidade absoluta e alcançável para metrópoles em desenvolvimento. O sucesso da coalizão demonstra que a união da sociedade civil, munida de dados e disposta a dialogar com o poder público, tem o poder de reescrever o planejamento das cidades.

Ao priorizar pedestres, ciclistas e passageiros de ônibus, as Filipinas não apenas resolveram um gargalo logístico, mas deram um passo gigantesco em direção à saúde pública, equidade social e resiliência climática. A revolução da mobilidade está apenas começando, e Manila acaba de desenhar o mapa do caminho.