Novas variedades de abacate revelam diversidade que pode ajudar a proteger o alimento no futuro

Uma viagem pelas florestas e plantações da América Central revelou uma riqueza de abacates muito maior do que aquela encontrada normalmente nos supermercados.

Pesquisadores descobriram na Nicarágua e em regiões próximas uma grande diversidade genética de variedades tradicionais de abacate, algumas delas bastante diferentes das variedades comerciais cultivadas em larga escala.

A descoberta pode se tornar importante para o futuro da agricultura, principalmente porque essa diversidade natural pode ajudar pesquisadores a desenvolver plantas mais resistentes a doenças e às mudanças nas condições climáticas.

Muito além do conhecido abacate Hass

Grande parte dos abacates encontrados atualmente no comércio internacional pertence à variedade Hass.

Ela conquistou produtores e consumidores graças a características como sabor, tamanho, resistência durante o transporte e boa conservação após a colheita.

Mas existe uma consequência dessa enorme popularidade: muitas plantações comerciais possuem árvores geneticamente muito parecidas.

Quando uma cultura apresenta pouca diversidade genética, uma nova doença ou uma mudança significativa no clima pode atingir muitas plantas de maneira semelhante.

É por isso que encontrar variedades diferentes pode ser tão importante.

47 variedades tradicionais foram estudadas

Os pesquisadores coletaram folhas de abacateiros cultivados tradicionalmente na Nicarágua, em Honduras e no sul do México.

No total, foram analisadas 47 variedades locais, sendo 32 provenientes da Nicarágua.

O DNA dessas plantas foi comparado com informações genéticas já disponíveis de mais de 200 outras linhagens de abacate.

Os resultados revelaram uma história surpreendente.

Muitos dos abacates encontrados nas regiões mais baixas da Nicarágua possuem relações genéticas com plantas localizadas bem mais ao sul, incluindo áreas próximas à costa da Colômbia.

Uma viagem iniciada milhares de anos atrás

Os cientistas acreditam que essa distribuição está ligada às próprias populações humanas que viveram nas Américas há milhares de anos.

Por volta de 5 mil anos atrás, pessoas que se deslocavam da América do Sul em direção à América Central podem ter carregado consigo sementes dos abacates que consumiam.

Ao serem plantadas em novas regiões, essas árvores se encontraram com variedades locais.

Ao longo de muitas gerações, cruzamentos entre diferentes populações criaram a grande variedade genética encontrada atualmente.

Isso significa que a diversidade observada hoje não é resultado apenas da natureza, mas também de milhares de anos de relacionamento entre comunidades humanas e agricultura.

Agricultores ajudaram a preservar essa diversidade

Um dos aspectos mais interessantes do estudo foi justamente a participação dos agricultores locais.

Além de coletar material genético, os pesquisadores conversaram com pessoas que cultivam essas árvores há gerações.

Elas forneceram informações importantes sobre o comportamento das variedades, sua adaptação ao clima e as técnicas utilizadas para cultivá-las.

Algumas dessas plantas crescem em regiões quentes e úmidas e demonstram características que despertaram grande interesse dos pesquisadores.

Agricultores locais também relataram que determinados abacateiros tradicionais não enfrentavam alguns dos problemas de raízes que podem afetar variedades comerciais.

Diversidade pode aumentar a resistência

Preservar essa variedade genética pode ser importante diante das mudanças climáticas e do surgimento de novas doenças.

Uma população formada por árvores geneticamente variadas oferece aos cientistas uma quantidade muito maior de características para estudar.

Algumas plantas podem tolerar melhor temperaturas elevadas. Outras podem lidar melhor com excesso de umidade, períodos secos ou determinados microrganismos.

Essas características podem, no futuro, ser utilizadas em programas de melhoramento para desenvolver cultivos mais resistentes.

O futuro do abacate pode estar em seu passado

A descoberta também chama atenção para o valor das variedades tradicionais cultivadas em pequenas propriedades e comunidades rurais.

Enquanto a agricultura moderna costuma favorecer poucas variedades altamente produtivas, esses cultivos locais funcionam como verdadeiros reservatórios de diversidade.

Preservá-los significa manter disponível uma biblioteca genética criada ao longo de milhares de anos.

Em um mundo que precisa produzir alimentos diante de condições ambientais cada vez mais desafiadoras, essa diversidade pode se tornar extremamente valiosa.

E há algo especialmente interessante nessa história: sementes carregadas por pessoas milhares de anos atrás podem agora ajudar cientistas a encontrar maneiras de proteger um dos alimentos mais populares do presente para as próximas gerações.