Tecnologia neural ajuda homem com paralisia a voltar a alimentar-se sozinho e sentir o toque

Depois de viver durante anos com paralisia causada por uma grave lesão na medula, Keith Thomas voltou a realizar movimentos que pareciam ter sido perdidos para sempre.

Hoje, ele consegue usar os braços e as mãos para realizar tarefas como levar alimentos à boca, beber em um copo e tocar novamente o pelo de seu cachorro.

Esses avanços foram possíveis graças a uma tecnologia conhecida como “duplo desvio neural”, que combina implantes cerebrais, inteligência artificial e estimulação elétrica para criar uma nova comunicação entre o cérebro e partes do corpo afetadas pela lesão.

O resultado de anos de acompanhamento foi publicado em uma importante revista científica e abre uma nova possibilidade de pesquisa para pessoas que vivem com lesões graves na medula espinhal.

Um acidente mudou completamente sua vida

Keith sofreu uma grave lesão no pescoço depois de um acidente em uma piscina em 2020.

A lesão interrompeu grande parte da comunicação entre seu cérebro e seu corpo, causando paralisia e perda de sensibilidade.

Atividades simples que antes aconteciam automaticamente passaram a depender de outras pessoas.

Algum tempo depois, ele recebeu a oportunidade de participar de um estudo experimental desenvolvido por pesquisadores dos Feinstein Institutes for Medical Research, nos Estados Unidos.

A proposta era tentar criar uma espécie de ponte tecnológica ao redor da região lesionada.

Transformando pensamentos em movimentos

O sistema começa no cérebro.

Pequenos dispositivos implantados em áreas relacionadas ao movimento conseguem captar sinais produzidos quando Keith pensa em movimentar a mão ou o braço.

Esses sinais são enviados para um computador e interpretados por sistemas de inteligência artificial.

Depois, comandos elétricos são enviados para estimular partes do corpo envolvidas naquele movimento.

Na prática, a tecnologia cria uma rota alternativa para uma mensagem que não consegue mais atravessar normalmente a região lesionada da medula.

O caminho também funciona no sentido contrário

O sistema é chamado de duplo desvio porque o objetivo não é apenas enviar comandos do cérebro para o corpo.

Os pesquisadores também trabalham para devolver informações sensoriais ao cérebro.

Isso permite que Keith perceba novamente determinadas sensações durante o contato com objetos ou pessoas.

Essa parte é especialmente importante porque usar as mãos não depende apenas de movimentá-las. O cérebro também precisa saber o que os dedos estão tocando e quanta força deve ser aplicada.

Segurar um copo, por exemplo, exige uma pressão diferente daquela necessária para segurar um objeto muito delicado.

Força e movimentos apresentaram melhora

Durante meses de treinamento, Keith apresentou avanços importantes na força dos braços e na amplitude de seus movimentos.

Atividades antes impossíveis, como aproximar a mão do rosto, passaram a fazer parte de sua rotina.

Ele conseguiu voltar a realizar tarefas pessoais que representam uma enorme diferença para sua independência.

Mas uma das descobertas que mais chamou atenção dos cientistas ocorreu quando o sistema não estava sendo utilizado.

Parte dos avanços permaneceu mesmo sem o sistema ligado

Os pesquisadores observaram que algumas melhorias de movimento e sensibilidade continuavam presentes mesmo quando determinados componentes do sistema eram desligados.

Isso sugere que o treinamento não estava apenas criando uma ligação eletrônica temporária.

Ele também pode ter ajudado o próprio sistema nervoso a reorganizar algumas de suas conexões.

Essa capacidade do cérebro e do sistema nervoso de se adaptar é conhecida como neuroplasticidade.

Estimular repetidamente as rotas relacionadas ao movimento e à sensação pode ajudar o organismo a reforçar conexões que ainda permanecem disponíveis depois de uma lesão.

Uma pesquisa ainda experimental

Apesar dos resultados impressionantes, a tecnologia ainda está em fase de pesquisa e não representa um tratamento amplamente disponível para pessoas com paralisia.

O estudo acompanha um caso específico, e novos testes com mais participantes serão necessários para entender quais pacientes podem se beneficiar, quanto tempo os resultados permanecem e quais são os riscos e limitações.

O próprio nível e tipo de lesão podem fazer grande diferença na resposta de cada pessoa.

Pequenos movimentos com enorme significado

Para quem observa de fora, levar um alimento à boca, segurar um copo ou acariciar um cachorro podem parecer gestos comuns.

Para alguém que perdeu esses movimentos, porém, cada um deles representa independência, contato e uma parte importante da vida cotidiana sendo recuperada.

O trabalho também demonstra o quanto diferentes áreas da ciência estão começando a se encontrar.

Neurociência, engenharia, inteligência artificial e medicina estão sendo combinadas para encontrar novas maneiras de restabelecer conexões interrompidas pelo corpo.

Ainda existem muitas perguntas a responder, mas os avanços de Keith oferecem algo valioso para pesquisadores e pacientes: evidências de que algumas funções consideradas perdidas podem, em determinadas condições, encontrar novos caminhos.